PEC DO CERRADO E CAATINGA: PRÓS E CONTRAS (Versão 2.0)
Donald Sawyer 5 de setembro de 2007. Professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB) e Assessor do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).
Introdução
Diversos argumentos podem ser considerados pelos Senadores e Deputados Federais para aprovar ou não a Proposta de Emenda da Constituição para que o Cerrado e a Caatinga sejam considerados Patrimônio Nacional. Este texto apresenta, de forma sucinta, diversos prós e contras, fazendo-se um balanço final, bastante favorável à aprovação da PEC 115.

2 Importância Regional e Nacional
Juntas, as regiões do Cerrado e a Caatinga ocupam um terço do território nacional, entre o mar e a floresta amazônica. De periferia, passaram a centro, de sertão, a coração do Brasil. Abrigam terras e águas de grande valor, com áreas dinâmicas de agronegócio, como também áreas de pobreza persistente.


Além de sua importância para o desenvolvimento regional e nacional, os dois biomas são também essenciais para a segurança nacional no século XXI, considerando os riscos entrelaçados do crescimento econômico acelerado, da globalização, da desigualdade social e do aquecimento global, uma mistura perigosa.
Poucos se dão conta de que, atualmente, o desmatamento no Cerrado, da ordem de 30 mil km2 por ano, é duas ou três vezes maior do que na Amazônia, agora reduzida a 10 mil km2 por ano, numa área bem menor. A Caatinga também sofre pressões, por outras razões. Praticamente ninguém se manifesta, a não ser para expressar alívio que não se trata de desmatamento de floresta tropical.
3 Argumentos a Favor da PEC 115Os argumentos a favor da aprovação da PEC 115 são muitos, de diversas ordens. Os argumentos ambientais podem ser resumidos em termos de “ABC”, i.e. água, biodiversidade e clima. As outras dimensões relevantes são sociais, econômicas e políticas.
3.1 Dimensões Ambientais
3.1.1 Água
Os principais rios brasileiros, que fluem de norte para sul, sul para norte e oeste para leste, nascem e crescem no Cerrado. Apenas o Solimões e alguns afluentes do Amazonas entram pelas fronteiras da Bolívia, do Peru e da Colômbia. O Aqüífero Guarani também depende de áreas de recarga que estão no Cerrado.
Os rios e aqüíferos que têm sua origem no Cerrado são essenciais para abastecimento de água para o consumo humano de água. No futuro, serão ainda mais importantes com o avanço da desertificação e a integração das bacias do Nordeste.
As lavouras e pastagens brasileiras dependem diretamente de chuva, enquanto a agricultura irrigada no Cerrado e na Caatinga depende de rios alimentados por chuva. Até o Sudeste depende da umidade que vem do Atlântico e passa pela Amazônia e pelo Cerrado, em ciclos sucessivos de precipitação e evaporação.
O desmatamento acima de determinado patamar irá interromper este fluxo norte-sul. Se não houver esta contribuição de umidade vindo do norte, não haverá, por exemplo, 1200 milímetros de precipitação necessários para plantar cana em São Paulo.
Tampouco haverá água suficiente drenando para o rio São Francisco, menos ainda para sua transposição.
Além da importância para o consumo humano e para a agropecuária, sem falar na indústria e no transporte, a chuva e os rios no Brasil central são vitais para a matriz energética brasileira.
Estima-se que 95% da população brasileira (toda ela exceto dos estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima e Amapá) dependem de energia elétrica gerada ao menos em parte com águas provenientes do Cerrado.
Estas águas movimentam as usinas de Tucuruí, Serra da Mesa, Lageado, todo o sistema São Francisco, Itaipu e todo o sistema Paraná. As usinas de Belo Monte, Santo Antônio, Jirau e Estreito, entre outros projetados para evitar um apagão energético, também irão depender de águas provenientes do Cerrado. Sem as águas do Cerrado, o apagão energético poderá não ter solução.
Mesmo se continuar caindo a mesma quantidade total de precipitação, que parece se concentrar em um período chuvoso cada vez mais curto, a geração de energia hidrelétrica está ameaçada pelo desmatamento no Cerrado.
O assoreamento, decorrente da erosão, reduz a vida útil dos reservatórios. Ao reduzir a infiltração e acelerar o escoamento superficial, o plantio de lavouras ou pastagens sem plantio direto acentua a sazonalidade do fluxo, fazendo verter no período chuvoso e faltar nos reservatórios no período seco.
Isto implica ociosidade sazonal de usinas ou então a construção de uma série de barragens a montante para regular o fluxo. A nova tecnologia de bulbo depende de reservatórios menores, porém depende de fluxo regular ao longo do ano.
3.1.2 Biodiversidade

Embora menos conhecida que na Amazônia e Mata Atlântica, a biodiversidade no Cerrado é tão rica quanto. O Cerrado é a savana mais rica do mundo.
A biodiversidade da Amazônia é compartilhada com países vizinhos, mas a biodiversidade do Cerrado e da Caatinga é singular, única, sem igual no mundo, e em sua maior parte é exclusivamente brasileira.
A biodiversidade é valorizada porque pode conter a cura de doenças. No entanto, a biodiversidade brasileira é pouco estudada, especialmente nos biomas considerados os primos pobres.
Destaca-se que a biodiversidade do Cerrado e da Caatinga tornou-se estratégica no contexto do aquecimento global, uma vez que as espécies endêmicas, os parentes silvestres e a agrobiodiversidade – grãos como arroz, milho e trigo, leguminosas como soja e amendoim, tubérculos como mandioca, fibras como algodão, árvores como acácias e outras plantas como abacaxi (da família das bromélias) – são mais resistentes a temperaturas elevadas e a seca.
Estes recursos genéticos, de tolerância a estresse térmico e hídrico, que não se encontram nas florestas úmidas, valem cada vez mais. Estão sendo eliminados.

3.1.3 Clima
Hoje, todos têm consciência do aquecimento global e da significativa contribuição brasileira por meio de emissões de carbono decorrentes do desmatamento. Atualmente, as emissões do Cerrado aproximam-se das emissões da Amazônia. O Cerrado tem menos carbono por hectare, mas não é muito menos, devido às raízes profundas, e área desmatada é maior. A redução destas emissões, inclusive as emissões do Cerrado, pode justificar compensação financeira internacional da ordem de bilhões de dólares. Seja como for a compensação internacional, o fato de que o Brasil sofrerá fortes impactos do aquecimento global, desde inundações costeiras até desertificação no Cerrado, na Caatinga e na Amazônia oriental, justifica medidas nacionais soberanas para mitigar impactos por meio da redução das emissões do desmatamento. Os impactos da mudança climática determinada principalmente por emissões globais aumentam a importância de buscar maior equilíbrio no uso da terra no Brasil, para reduzir os ciclos de retro-alimentação positiva (i.e. reforço mútuo) entre desmatamento, incêndios florestais, desertificação, redução da precipitação e crescimento da temperatura, que um PAC desavisado poderia acelerar.


3.1.4 Interdependência EcológicaA flora e a fauna dependem das chuvas e dos fluxos das veredas, córregos e rios. Retirando-se qualquer um dos elos, rompe-se a cadeia vital e o ecossistema todo pode entrar em colapso. A diversidade é fator importante na adaptação a mudança climática. Se os ecossistemas centrais do Brasil entrarem em colapso, os outros ecossistemas também serão prejudicados.
3.2 Dimensões Sociais, Econômicas e Políticas
3.2.1 Dimensões Sociais
O Cerrado e a Caatinga abrigam imensa sociodiversidade de povos e comunidades tradicionais, incluindo indígenas de dezenas de etnias, sertanejos, ribeirinhos, geraizeiros, vazanteiros, quilombolas etc. Estes grupos convivem com os ecossistemas de forma sustentável e são detentores de conhecimentos tradicionais.
A diversidade cultural e o conhecimento estão desaparecendo na medida em que as comunidades são deslocadas ou desestruturadas pelo avanço da fronteira agropecuária.
O Cerrado também abriga migrantes mais recentes do Nordeste, Sudeste e Sul que, na segunda e terceira geração, estão se adaptando ao meio.
O interior do Cerrado e da Caatinga continua sendo válvula de escape para os segmentos da população que não encontram emprego e renda nas cidades ou preferem outros modos de vida. O êxodo rural continua, mas agora está também ocorrendo migração de retorno e o Censo Agropecuário está indicando um aumento da agricultura familiar. Assim, o Cerrado e a Caatinga constituem um espaço alternativo para populações que vivem em harmonia com a natureza. Ao mesmo tempo, a sociodiversidade mantém a biodiversidade e as funções ecológicas, hidrológicas e climáticas.
A sociobiodiversidade existente no Cerrado e na Caatinga está fortemente pressionada por um marco regulatório hostil, que favorece as empresas grandes e modernas e dificulta ou pune os pequenos produtores que buscam modos de vida alternativos ou tradicionais.
O reconhecimento da importância de suas funções sócio-econômicas e ambientais seria fundamental para a adequação e simplificação dos marcos regulatórios sanitários, de inspeção agropecuária, ambientais e fiscais.

Se temos Supersimples para as micro-empresas e facilidades até para sacoleiros, por quê dificultar para os 20 milhões de moradores do interior do Cerrado e Caatinga?
3.2.2 Dimensões Econômicas
O desenvolvimento econômico regional depende de fatores endógenos – capital natural e social – e de estímulos externos de políticas e programas governamentais, que interagem com os fatores endógenos.
A região Centro-Oeste e o interior do Nordeste têm sido relegados em termos de investimentos públicos. O reconhecimento oficial da importância do Cerrado e da Caatinga poderia ajudar a superar este quadro de desigualdade regional persistente, conforme determina a Constituição.

O reconhecimento da importância ambiental desses biomas seria essencial para superar o padrão predatório, que gera riqueza para poucos e por pouco tempo.
Em termos macroeconômicos, a promoção de modos de vida sustentáveis e a adequação dos marcos regulatórios para “destravar” a produção familiar agrícola e agroextrativista teriam baixo custo e permitiriam evitar volumosos gastos públicos em assistência social com populações pobres ou miseráveis no campo ou deslocadas para as cidades, onde os custos são maiores.
3.2.3 Dimensões Políticas
O reconhecimento do Cerrado e da Caatinga corrigiria uma injustiça cometida há quase 20 anos. Depois de 1988, os dois biomas receberam muito pouco em termos de cooperação internacional e apoio governamental comparado com os biomas que são patrimônio nacional. A PEC 115 é importante simbolicamente, mas também serve para justificar maior parcela na distribuição de recursos nacionais e internacionais.
A alocação de recursos no orçamento nacional e na cooperação internacional depende de sinalizações políticas deste tipo. No exterior, quase ninguém sabe o que é o Cerrado ou a Caatinga.

Embora pouco visíveis em termos nacionais, os estados do Cerrado e da Caatinga possuem peso muito significativo no eleitorado em geral, como também no Congresso Nacional. Poderiam se conscientizar de seu peso e seus interesses comuns, buscando sua unidade, entre si e com a Amazônia e o Pantanal e partes da Mata Atlântica.
3.2.4 Interdependência SocioecossistêmicaObserva-se que as dimensões ecológicas e sócio-economico-políticas são todas interdependentes. Podem interagir de forma positiva ou negativa. Urge buscar os ciclos virtuosos e a integração entre sociedade e natureza.
Argumentos Contra a PEC 115
Os argumentos contra a consideração do Cerrado e da Caatinga com patrimônio nacional são menos explícitos que os argumentos a favor, referindo-se a diluição, outra exclusão e, sobretudo, possíveis restrições ao desenvolvimento econômico.
Há quase 20 anos, os autores do artigo 225 da Constituição Federal não queriam diluir opatrimônio nacional e, portanto, as atenções e os recursos do governo e de doadores internacionais. A Amazônia e o Pantanal eram conhecidos internacionalmente, enquanto a Serra do Mar e a Zona Costeira concentravam os ambientalistas, que juntaram o apelo existente com as demandas emergentes. Hoje em dia, não se justifica mais esta discriminação.
Com a atual divisão do Brasil em biomas, poder-se-ia considerar que, ao incluir dois biomas importantes, mas esquecidos, a PEC 115 exclui outro bioma, os Campos Sulinos. Há certa razão, mas não há argumento, uma vez que não há PEC que os inclua. Seria necessário esperar anos para apresentar e tramitar nova PEC.
A principal preocupação no momento, ao menos com relação ao Cerrado, é que a PEC poderia impedir o desenvolvimento do agronegócio e da agroindústria. Temem-se restrições à abertura de novas áreas e no aproveitamento das terras abundantes no Brasil, comparado com outros países, para a produção de alimentos e agroenergia para consumo doméstico e exportações. Vamos ver porque, ao contrário, o desenvolvimento não depende mais do desmatamento.
Balanço
Há que se lembrar que o paradigma atual, depois da Rio-92, é o desenvolvimento sustentável.
Em termos concretos, o padrão de crescimento da agropecuária no Brasil mudou de extensivo para intensivo, aumentando-se a produtividade no lugar de expansão da fronteira.
O agronegócio moderno não precisa mais de desmatamento. O próprio Ministro da Agricultura (tanto atual, quanto anterior) diz que a produção poderia crescer muito sem derrubar mais uma árvore. Autoridades dizem que temos até 200 milhões de hectares desmatados disponíveis para expansão. Além disso, a agroindústria, necessária para agregar valor, funciona melhor onde há mercado e infra-estrutura do que na fronteira distante.
No Cerrado, os números oficiais mais conservadores indicam que cerca de 40% já estão desmatados, 80 milhões de hectares. Restam poucos fragmentos grandes necessários para a sobrevivência do ecossistema, apenas 5%. Assim, sobram 10% para unidades de conservação e 50% para paisagens sustentáveis incluindo a pequena produção agrícola e agroextrativista. A produtividade das pastagens, que correspondem a cerca de 80% da área desmatada, é baixíssima.
A questão central é simples: o Brasil precisa de mais da metade do Cerrado, mais de 1 milhão de km2, mais de 100 milhões de hectares, para produzir internamente e competir internacionalmente?
O bom nome do agronegócio está sendo prejudicado, especialmente no exterior, pelos produtores insustentáveis. Há que se lembrar aos produtores estáveis, legais e sustentáveis que a expansão da fronteira implica concorrência desleal, devido a grilagem de terras, violação das normas ambientais e trabalho análogo a escravidão.
Para o governo, implica grandes investimentos em infra-estrutura e serviços. Para produtores e governo, em termos econômicos, seria mais racional intensificar a produção e aumentar a produtividade nas áreas já desmatadas e melhor localizadas.
Além de aumentar a produtividade, seria importante aumentar a sustentabilidade, principalmente reduzindo a erosão, que provoca assoreamento, e a poluição por agrotóxicos e fertilizantes. A preocupação oficial com o patrimônio natural é condição necessária para que o governo propicie incentivos oficiais, incluindo pesquisa, extensão e crédito rural, necessários para a sustentabilidade, uma responsabilidade coletiva.
Da mesma forma, a preocupação oficial com o patrimônio natural é praticamente uma condição para propiciar o apoio para recuperação de áreas degradadas, favorecendo ocumprimento do Código Florestal quanto a Áreas de Preservação Permanente e ReservasLegais. É importante para a legalização da propriedade rural, que todos desejam.
Conclusões
De qualquer forma, a efetividade de uma PEC não é determinada pela Constituição, mas depende de regulamentação. As exigências e as oportunidades específicas serão definidas em leis, regulamentações e programas. A PEC 115 em si não oferece perigo nenhum.
O Cerrado e a Caatinga precisam de ajuda urgente, para o bem do Brasil como um todo. Ninguém vai perder com a aprovação da PEC 115, que constitui uma condição para desenvolvimento sustentável e segurança para todos os brasileiros. Recomenda-se sua aprovação.